• Tati Regis

Uma revigorante possessão em "Raízes Macabras"

Brujas, demônios, possessões, rituais e exorcismo formam o prato perfeito para uma boa narrativa folk horror. Em Raízes Macabras, filme de 2020 dirigido por Christopher Alender e focado em personagens e crenças latinos americanas, temos a história de Cristina Lopez (Brigitte Kali Canales), uma repórter mexicana que vive um trauma na infância, vai morar em Los Angeles e apaga da memória quase todo seu passado.


Em determinado momento de sua vida, ela sente a necessidade de voltar para Veracruz, sua terra natal, e passa a investigar sobre mitos locais, bruxaria. Após visitar uma caverna que abriga antigos e malignos espíritos, ela é sequestrada por nativos e a feiticeira local tem certeza que Cristina está possuída por um demônio. Tudo acontece e se desenvolve sem firulas, mas atenção: sabe o ditado "o diabo mora nos detalhes"? Pronto, é onde mora também nossa história.



O local onde a protagonista fica presa após o sequestro é familiar, lá está Luz (Julia Vera), uma antiga feiticeira e também Miranda (Andrea Cortés), sua prima. Catemaco é um vilarejo dentro de uma floresta que abriga suas próprias lendas, folclores, crenças e leis, assim como uma prática própria da feitiçaria. Cristina já teve experiência com o oculto no passado — vemos isso através de flashbacks — mas o trauma lhe tornou cética e ela jura não estar possuída. Nós também.


Ela quer ir embora, pede para a prima chamar a polícia e oferece até dinheiro para libertá-la. Tudo em vão. Os dias passam e vamos conhecendo mais sobre o papel de cada um ali. Conhecemos também o passado de Cristina, seus medos, traumas, sua alma perdida e quebrada. Ela é consumida cada vez mais por uma vida de vícios e fugas. Fuga era o que Cristina procurava quando foi parar na caverna proibida La Boca, porém, quanto mais o sentimento de não pertencimento a consumia, mais ela ia se aproximando de sua herança, de sua ancestralidade e de seu legado.


Quero destacar de como a direção de Alender é segura, assim como as atuações, a cinematografia de Adam Lee e o design de som de Sam Plattner. Tudo se torna envolvente e ajuda a construir a atmosfera sinistra daquele local e daquela floresta. Outro recurso que acaba servindo muito bem para a construção da personalidade distante da protagonista é o idioma, já que ela cresceu nos EUA e esqueceu quase que completo como falar espanhol.



No geral, Raízes Macabras se desenvolve bem em seus 90 minutos, mesmo tendo seus altos e baixos no que diz respeito a sustos e na construção do medo e ansiedade. Às vezes peca pelo exagero e às vezes peca pela falta. Mas, somos compensados também com cenas bem agonizantes como a da cirurgia e a angustiante cena de cabelos saindo da goela. Confesso que me fizeram revirar no sofá.


O filme tem no protagonismo principal três mulheres, e é aí que mora o ponto central da trama que se utiliza de Luz, a anciã para chamar o empoderamento das mais jovens e o encontro consigo mesmas. Cristina vai de totalmente cética para um ser poderoso. Um verdadeiro espírito amadurecido que agora sim carrega muito bem sua hereditariedade.


Pegando carona no boom da última década com produções voltadas para possessões, ocultismo e bruxarias, Raízes Macabras pode ser um respiro, e mesmo com suas inconsistências, é um filme que vale ser visto. Ele teve sua estreia mundial no Festival de Cinema de Sitges em outubro de 2020, passou por diversos festivais como o Chattanooga Film Festival, Shivers Film Festival e outros. No Brasil passou pelo Fantaspoa e estreia hoje (25 de Agosto) no catálogo da Netflix.


Raízes Macabras (2020)

The Old Ways


IMDb | Rotten Tomatoes | Letterboxd | Filmow

Direção Christopher Alender

Duração 1h30min

Gênero(s) Terror

Elenco Brigitte Kali Canales, Andrea Cortés, Julia Vera +


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