• Monique Costa

Slapface: encontrando conforto no sobrenatural

Filmes de terror protagonizados por crianças sempre são um ótimo meio de explorar mundos fantásticos e ambíguos, uma vez que normalmente essas histórias são apresentadas sob uma ótica particular infantil. Ou seja, podemos abandonar o raciocínio lógico e abraçar o abstrato, o fantasioso e o onírico. Mas se por um lado esse artifício atrai pela sua riqueza de possibilidades, por outro, pode ser uma armadilha para os criadores que não souberem dosar ou conectar os dois mundos – o que acontece em Slapface.


Dirigido e roteirizado por Jeremiah Kipp, o filme inicia com uma curiosa cena entre os irmãos Lucas (August Maturo) e Tom (Mike C. Manning) se estapeando freneticamente. Mais tarde descobrimos que se trata de uma brincadeira dos dois, como uma forma de resolução de problemas sem que seja necessário dialogar. Tal fato já diz muito sobre como se desenvolve esta relação: em um ambiente de abuso e violência, com sentimentos reprimidos, sem que haja espaço para conversar e entender as causas e consequências de suas ações.


E pelo que aparenta, isso é uma constante na vida dos irmãos mesmo antes do falecimento dos seus pais. Mas agora, sem supervisão e com muita bagagem emocional para lidar, eles são forçados a um amadurecimento precoce para que possam cuidar de si mesmos e um do outro, de diferentes formas. Portanto, já é de se imaginar que todo esse fardo causaria grandes danos nesses jovens personagens, o que realmente acontece. Enquanto Tom afoga seus sentimentos no álcool e desconta sua raiva na relação com Anna (Libe Barer), Lucas passa seus dias na floresta tentando se conectar com a falecida mãe.



No entanto, quem ele acaba encontrando é uma criatura escondida nos escombros de um local abandonado, que o garoto logo associa à lenda local da Virago: primeiro ela era uma brisa, depois ela era uma árvore, então ela era uma bruxa. Mas diferente dos contos infantis, essa figura não demonstra um perigo para ele (ao menos não diretamente). Na verdade, ela se revela como uma mãe substituta que cuida dos seus ferimentos, protege dos perigos e tenta afastar a tudo e a todos que ofereçam algum tipo de mal para o menino.


O problema dessa relação se dá quando Virago ultrapassa os limites da floresta e começa a ferir as pessoas ao redor de Lucas, é justamente aqui que a narrativa se perde. Mesmo que tenha passado grande parte do seu tempo desenvolvendo uma metáfora sobrenatural para os sentimentos reprimidos do garoto, Slapface acaba por apresentar consequências desmedidas para o mundo real, tornando falha a sua alegoria. Claro que isso não estraga o filme por completo, mas fica a sensação de que ele tinha potencial para algo melhor.


Em contrapartida, é de se elogiar o design da criatura (que não apela para efeitos digitais duvidosos) e das composições de cena em que ela aparece, além da tentativa genuína de Jeremiah Kipp em nos contar uma história complexa com personagens falhos e imperfeitos, sem que ocupem papéis unilaterais de heróis ou vilões. Importante ressaltar que o roteiro já tinha gerado um curta homônimo em 2017, mas que infelizmente não encontrei disponível.


 

Slapface (2022)


IMDb | Rotten Tomatoes | Letterboxd | Filmow

Direção Jeremiah Kipp

Duração 1h25min

Gênero(s) Terror, Drama

Elenco August Maturo, Mike C. Manning, Lukas Hassel +


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