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  • Foto do escritorTati Regis

O Mal que Nos Habita e o impacto pelo grotesco

Lembro das aulas na faculdade de artes se falando muito em uma estética do belo, quase tudo era avaliado ou construído a partir desse conceito até que chegamos aos estudo da história da feiura e do grotesco. Claro que a cabeça explode e as percepções de mundos, culturas e impactos mudaram vertiginosamente. Hoje, analisando principalmente filmes de gênero, especificamente o terror, lido muito mais com esse grotesco, com esse feio do que um belo socialmente concebido como padrão. O terror tem como protocolo quebrar esse paradigma, mas é como dizem, tudo acaba se tornando relativo e o que é feio para alguns, se torna belo para outros. Como não amar ver na telona um corpo humano em putrefação derramando pus e fezes? A sensação que essa imagem ou outras imagens semelhantes nos causam em um filme de terror, talvez venha daí a beleza. A estranheza, a repulsa, o medo atrelado a imagens de deformidades, exageros e estranhas irregularidades, é o que define o grotesco e no cinema, a arte da imagem em movimento, isso se torna deveras apelativo e, por que não, gostoso?


O diretor argentino Demián Rugna não tem vergonha e nem teme assumir que seus filmes são 100% terror, ainda mais hoje em dia com a crescente higienização do gênero onde se valoriza cada vez mais um “horror elevado” e limpo escondido em vários outros gêneros e subgêneros. O Mal que nos Habita, título brasileiro do Cuando Acecha la Maldad, evoca no espectador a sensação de estar diante de um filme medonho, pavoroso, aterrorizante e graficamente grotesco quando traz para o cerne da história uma nova mitologia para o que ficou conhecido como possessão/possuídos. Aqui, no filme de Rugna, possuído significa estar apodrecido e essa possessão é transmitida como se fosse um vírus que vai tomando conta das pessoas num espiral de desgraças e invadindo os lugares começando pelo rural até chegar na cidade. Rezar não adianta muito e as igrejas e religiões, dá a entender, são instituições falidas nesse lugar.


Filmes de possessão temos a milhões e quase sempre as mesmas tramas, não à toa, o filme de Rugna e o filmes dos australianos Philippous, Fale Comigo, foram as duas produções que mais causaram burburinho o ano passado ressignificando o termo e criando novas mitologias para o subgênero de possessão.



Tudo começa numa pequena cidade rural onde os protagonistas e irmãos desconfiam que algo de mal está acontecendo ou estar para acontecer. Somos inseridos nesse universo demoníaco e arrastados logo de cara para o gore de um corpo humano cortado pela metade, da cintura para baixo e suas entranhas para fora numa floresta. Demián já diz aí que não terá medo de mostrar o pior (ou melhor) e seus efeitos práticos aterrorizantes já conhecemos desde Aterrorizados (2017). Do gore desse corpo pela metade, somos levados a outro corpo, só que dessa vez vivo, ou quase vivo, é um apodrecido corpo gordo cheio de pus e cocô. Não tem como não virar a cara ao dar de cara com essa imagem escatológica. O mal habita esse corpo e o que os personagens tem que fazer agora é dar um jeito de acabar com esse mal, só que não existe o jeito simples de outros filmes de possessão. Não basta apenas matar ou exorcizar. Há toda uma regra que, claro, os personagens não seguem para que o filme precise acontecer. É no transporte desse corpo que tudo de ruim começa a acontecer com essas pessoas e com a cidade. É também onde temos o melhor do filme e digo, essa primeira metade é perfeita. Toda a condução frenética, todo o choque, todo o desconforto e tudo de ruim que acontece é perfeito e talvez esse impacto inicial tenha feito de O Mal que nos Habita esse filme inesquecível para muitos. 


O problema, meus amigos, para mim, é a segunda parte desse filme que fica tentando mostrar os mesmos choques e truques que já foram mostrados antes, acabando por perder o impacto e se tornando até chato. A chegada dos personagens na casa de Mirtha, uma mulher mais velha e experiente por supostamente já ter enfrentado o mal de um apodrecido, decai muito o clima e a atmosfera que foi construída no início. Claro que Rugna sabe muito bem dominar e administrar nossas expectativas e é o que nos faz querer chegar até o fim do filme, um final que, por sinal, é uma delícia de desconforto e desesperança. Entretanto, não consigo gostar dos subterfúgios usados para chegar nesse fim, que aplaudo enquanto tragédia, mas que passa a impressão de um desequilíbrio narrativo extremamente explicativo e expondo coisas que talvez funcionasse melhor se permanecesse na base do mistério ou do sugerido. Acabou que, na minha opinião, destoou sobremaneira do que foi muito bem construído no começo.


De toda forma, O Mal que nos Habita, mesmo com essa queda, ainda consegue segurar o desconforto com cenas finais devastadoras e perturbadoras, se firmando como uma das melhores coisas de gênero que pintou no ano de 2023. Claro que Rugna entra para o hall daqueles realizadores em que ficamos na ansiedade esperando trabalho novo. Que venham os próximos, estaremos prontos (ou não).


 

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