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  • Foto do escritorMyka Carvalho

O Coerente Figurino de Pearl

Pearl, do diretor Ti West, estreou recentemente nos cinemas brasileiros e o impacto que causou nos fãs de horror quando o trailer saiu só foi reforçado. É um filme visualmente deslumbrante, cores e formas que te prendem o olhar e a atuação fabulosa de Mia Goth. Tanto os cenários quanto os figurinos foram pensados para contar uma história de modo denso, unificado e muito inteligente.


O figurino foi desenvolvido por Malgosia Turzanska, que tem no currículo Stranger Things e também X – A Marca da Morte - 2022 (filme que inicia a trilogia de Ti West, seguido de Pearl e Maxinne, que ainda irá estrear). Turzanska usa cores e tecidos (grossos em cenas de autoridade e leves em outros momentos sutis) que se conectam à história, fazendo com que o espectador crie um elo inconsciente com o contexto das cenas: ‘’eu me identifico tanto com esses personagens e nem entendo o motivo’’. É o poder da roupa.


Historicamente, o que vestimos reflete a cultura, sociedade e vontades dos indivíduos, mas também de grupos. Pearl é uma jovem casada, com o marido na Primeira Guerra Mundial e pais complicados. Ela veste o que qualquer moça de fazenda em 1918 vestiria: macacão azul, laços no cabelo preso em tranças e bota. Mas há ali uma personalidade presente: ela não veste da mesma forma que outras vestiriam. Ela imprime o jeito de espoleta nos trejeitos e a roupa reforça, de um modo espontâneo, que essa ingenuidade não é dela.

Na primeira cena do filme, Pearl se deslumbra na imaginação, sonha com o estrelato e usa um vestido rosa que foi de sua mãe quando jovem. A mãe entra no quarto usando camisa branca de mangas bufantes e colete cinza de tecido trabalhado, refletindo autoridade e presença. A gola bordô discreta nos mostra que houve uma paixão ali, em algum momento da vida, presa na garganta sem permissão pra sair. É amargura, e ela projeta isso na filha sonhadora e perigosa.


Além do macacão azul, Pearl usa outra roupa marcante: o vestido vermelho. Em sua audição, enquanto gira, dança e sorri para os jurados, os babados do vestido longo lembram muito o corte e modelagem do vestido rosa, que ela usa na primeira cena. Rosa e vermelho são partes de uma mesma paleta de cores. Rosa representando o amor, a leveza. O vermelho traz paixão (golâ bordô da mãe, lembram?) e mostra toda a sua vontade de conquistar o que desejou tanto. Para além dessas cenas, na fazenda, o verde do gramado satura bastante a tela e contrasta com o vermelho de uma pequena casinha, em uma cena em que a própria Pearl tinge sua história com vermelho vivo: sangue. Ela agora seria sua própria fúria, retirando a vida de quem retirou dela o sonho, por meio de um machado que também possui um tradicional vermelho. Ela é puramente isso.

Um adendo interessante: as roupas de Misty, cunhada de Pearl, são deslocadas, não confortáveis aos olhos. Embora Turzanska tenha utilizado a acuracidade histórica em diversos momentos, o que não é necessariamente obrigatório quando falamos de figurinos em obras de época, ela também usa o desconforto de roupas de boneca em Misty, fazendo a gente sentir um pouco da visão de Pearl sobre ela: perfeita demais a ponto de ser esquisita. O imperfeito para Pearl é o natural, o sentido que faz as coisas fluírem. Sua raiva move nossos sentimentos e suas roupas fazem essas conexões de imediato. Somos observadores de uma história passional com muita referência a outros filmes (O Mágico de Oz – 1939) e a antiga Hollywood. Sua fúria, seu vermelho, seu macacão de espantalho com chapéu roubado e sua imperfeição (e Mia Goth, claro) são a receita para um filme interessante e um figurino que vai gerar muitas fantasias boas de Halloween em 2023.


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