• Tati Regis

Master: a branquitude não precisa ser o padrão

Master, primeiro longa da roteirista e diretora Mariama Diallo, acompanha três mulheres negras na busca por um lugar na Ancaster, fictícia universidade tradicional e majoritariamente branca da Nova Inglaterra com um background de histórias assombrosas e assombradas por ser construída em terras próximas a Gallows Hill, Salém, local conhecido pelos julgamentos e caça as bruxas. É um filme ancorado no "horror racial" ou "horror social" e aborda tropos relacionados às injustiças e perseguições sofridas por pessoas negras.


Gail Bishop (interpretada brilhantemente pela atriz Regina Hall) é a Master, uma espécie de reitora que ganha também o direito de morar numa casa no campus dessa universidade. A primeira negra neste cargo, na sua casa ainda está entranhado resquícios de outros antigos reitores que revelam segredos e sempre assombram Gail na calada da noite. Jasmine Moore (Zoe Renee) é uma estudante negra, recém-admitida na Ancaster e em seu primeiro dia descobre que ficará num quarto assombrado. Além disso, Jasmine tem que enfrentar a frieza e hostilidade de sua colega de quarto e seus amigos. Liv Beckman (Amber Gray) é uma professora negra de literatura que almeja um lugar de destaque e pertencimento na docência desta universidade, mas tem seu desejo questionado assim como todo seu currículo e sua capacidade. É a partir dessas três histórias que o filme é construído e muito bem. De combustão lenta, ela desenvolve bem as três figuras centrais explorando suas personalidades, medos, anseios, dúvidas, invisibilidade, alienação, solidões e toda a podridão presente naquele ambiente imbuído de um racismo podre e sistêmico.


Só pra contextualizar, “Master” era o modo como os escravos americanos eram forçados a chamar seus donos. Um termo racista que hoje está sendo debatido e até abolido por algumas universidades como a Harvard e pela própria universidade onde estudou Diallo, da qual tirou e modelou a história para esse filme.



Master é um filme de camadas e não só racial, mas também de classe e gênero. O ambiente acadêmico pode ser um lugar bem hostil para mulheres e pior ainda para mulheres negras. As microagressões e desigualdades são jogadas na nossa cara o tempo todo, como por exemplo, quando Jasmine alisa seu cabelo para tentar se adequar a sua nova realidade ou quando a professora Liv joga verdades na cara de uma gente alienada que faz de tudo para que o negro não exista e não pertença em seu ambiente. É tudo dosado e permitido, mas só até a página 2. A depender deles, nunca estaremos à altura.


Talvez alguns demorem a enxergar, como a própria Gail, que vai descobrindo aos poucos que os fantasmas existem, mas não da forma como estamos acostumados a ver em filmes de terror. Aqui, eles estão presentes e bem vivos a gerações, resultado de uma história mal resolvida da América que desencadeia até hoje em uma série de desigualdades e violências. A atmosfera de horror é intensificada e muito bem trabalhada pela forma como a diretora filma sempre focando em closes e nos olhares. As sombras são também muito bem exploradas e trabalhadas, assim como a trilha sonora carregada de suspense.



Diallo já mostrou a que veio em seus dois curtas Hair Wolf e White Devil, duas sátiras de horror e racismo. Sua vivência como mulher negra que vive nos EUA acabou influenciando seus dois primeiros trabalhos e em Master não foi diferente. É muito interessante o uso de metáforas que Mariama faz, como por exemplo, os vermes devorando a casa de Gail. Dá a sensação que todo aquele ambiente está sendo corroído por uma podridão de uma gente totalmente alienada da realidade que só enxerga seu próprio umbigo e ego. A própria Liv, quando está reunida com o conselho docente da universidade, deixa bem evidente qual a prioridade dessas pessoas que preferem persegui-la a ter que dar suporte a Jasmine, que sofre episódios de violência e alucinações que se confundem com crises de sonambulismo.


Se em Corra! (2017) Jordan Peele nos entrega uma fantasia que nos dá certa esperança, em Master, Mariama Diallo evoca a empatia a partir de um recorte pessoal, ao mesmo tempo em que nos deixa com aquele gosto amargo de que as coisas permanecerão assim por muito tempo. E mesmo que haja outros começos e recomeços, o fantasma do racismo estará lá, bem vivo, para nos assombrar. Espero ver em breve mais trabalhos da Diallo, pois urgente e necessária. O filme teve sua estreia mundial em janeiro de 2022 no Sundance Film Festival e estreou no Prime Video em 18 de março.


 

Fantasmas do Passado (2022)

Master


IMDb | Rotten Tomatoes | Letterboxd | Filmow

Direção Mariama Diallo

Duração 1h39min

Gênero(s) Terror, Suspense, Drama

Elenco Regina Hall, Zoe Renee, Amber Gray +

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