• Thaís Vieira

His House: o horror de muitos

Amar sua terra natal, mas ao mesmo tempo ser obrigado a deixá-la por medo da violência que assola este espaço familiar traz dor, tristeza, assim como angústia, ocasionada devido o afastamento daqueles que amamos e consequentemente a solidão encontrada neste novo local que deveria suscitar ares de felicidade por conta da dita "estabilidade".


Para além de todos estes problemas, ser um refugiado preto, originário do continente africano dificulta ainda mais a aceitação por parte daqueles que por vezes minimizam os fatores que os levaram a tomar tal atitude tão drástica. O que significa conviver diariamente com atos xenofóbicos, racismo e todos os estereótipos associados a pessoas que advém de países e continentes distantes.



His House, produção inglesa estrelada pelos ótimos Sope Dirisu e Wunmi Mosaku (Território Lovecraft) interpretando o casal Bol e Riaul que escapam ilesos da guerra civil no Sudão do Sul e chegam a Londres em busca de um recomeço depois dos horrores vividos em sua terra natal. Posteriormente descobrimos que a filha dos dois foi vitimada na travessia do oceano e o peso da perda da filha Nyagak, consome gradativamente a mãe que se culpa por ter conseguido chegar ao destino. Ao chegarem são vistos com desconfiança mas conseguem a oportunidade de ter uma casa em um bairro simples da cidade e lá convivem com o desafeto de vizinhos, o horror da adequação aos anseios brancos permeado principalmente pelas exigências da imigração "sejam bons", "sejam boas pessoas", uma espécie de "o preto ideal" além de serem constantemente assombrados por um espírito maligno.


Só a premissa da película em si já chama atenção, uma vez que se propõe a debater terrores humanos. Ainda assim, acompanhar o desenvolvimento dos personagens e perceber que seus traumas e vivências influenciam diretamente na forma como estes lidam com o mal que os cerca é impressionante. Riaul tem uma percepção mais ampla do que o tal espírito anseia e é responsável pelos melhores momentos da obra, com uma atuação louvável, Wunmi deixa transparecer em cada olhar, lágrima e flashback que os assombros são reflexos de nossas relações mundanas e que a chave para a mudança está ligada a forma como lidamos com nosso passado.



Bol anseia tanto ser aceito que se modifica quase que por completo com o intuito de apagar o passado sombrio que ambos viveram. Contudo, é inegável que essa busca incessante pelo apagamento também está associada com a forma que os europeus lidam com seu passado escravocrata e por conseguinte de colonizadores sentindo-se invadidos por povos que outrora "não ocupavam seu solo".


A casa que dá nome ao filme tem papel significativo, já que, apesar de ser vendida como uma das melhores não é lá essas coisas. E, à medida que é ocupada por espíritos errantes as estruturas se tornam cada vez menores. A imensidão do espaçamento físico que separava ambos vai sendo preenchida pelo surrealismo e pela realidade solitária. O terço final traz algumas surpresas e revelações importantes além de reiterar a ideia de que nosso passado nos torna quem somos, e para superar determinados traumas e sofrimentos é preciso que os aceitemos, essencialmente respeitando nossa ancestralidade e consagra o filme como sendo um dos melhores do ano passado.


O Que Ficou Para Trás (2020)

His House


IMDb | Rotten Tomatoes | Letterboxd | Filmow

Direção Remi Weekes

Duração 1h33min

Gênero(s) Terror, Thriller, Drama

Elenco Wunmi Mosaku, Sope Dirisu, Matt Smith +

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