• Monique Costa

“Fresh” e as relações antropófagas

Desde seu lançamento no Sundance Film Festival em janeiro deste ano, fiquei ansiosa para conferir Fresh, tanto pela sua boa recepção, quanto pela sua sinopse, seu elenco, suas possibilidades temáticas e pelo seu roteiro e direção feminina. E mesmo com todo esse hype, fico feliz e aliviada em dizer que a espera valeu a pena e que o filme excedeu as expectativas, portanto tentarei expor o mínimo de detalhes possível nesse texto para que também se surpreendam e passem pelas mesmas emoções.


O roteiro de Lauryn Kahn surgiu há três anos a partir do seu desejo de explorar o terror e com o conselho de uma amiga para escrever sobre o que mais a aterrorizava – que nesse caso, eram os encontros amorosos e todas as ansiedades e riscos que os rodeiam. O cargo de direção ficou para Mimi Cave, depois de meses de entrevistas com diversas diretoras, uma vez que a roteirista e os demais produtores tiveram a sábia e consciente decisão de só entrevistarem mulheres, uma vez que toda a narrativa se desenvolve sob uma perspectiva feminina que poderia ser facilmente deturpada em mãos erradas.


O reflexo disso vemos logo nos primeiros minutos do filme enquanto acompanhamos Noa (Daisy Edgar-Jones), uma jovem mulher que apesar de estar habituada com sua solteirice, faz uso de aplicativos de relacionamento na tentativa de mudar essa situação. Mas como já sabemos, essa não é uma tarefa fácil, e alguns dos incômodos que ela sofre são facilmente reconhecidos pelo público feminino: os discursos misóginos disfarçados, as fotos de pênis não solicitadas ou os xingamentos vindos de homens que foram rejeitados.



Então quando o galanteador Steve (Sebastian Stan) se aproxima de Noa no supermercado, e posteriormente se apresenta como um divertido médico que se mantém longe das redes sociais e propõe atividades românticas inesperadas como dançar no meio da sala ou fazer uma viagem surpresa, ele acaba conquistando a moça por parecer a luz no fim do túnel. Afinal, se os aplicativos de relacionamento não estão funcionando, por que não dar chance para um bom partido que conheceu “na vida real” como em um conto de fadas moderno?


Mas como já é de se esperar, Steve não é exatamente o que diz ser, e logo Noa descobrirá um lado sombrio de seu pretendente quando a sua fuga romântica sofre desvios drásticos. Obviamente que não vou revelar o que acontece, mas posso dizer que a partir desse ponto podemos encontrar analogias bem certeiras sobre objetificação feminina, comercialização de corpos, abusos de poder além de privilégios de raça e gênero, e isso tudo em diferentes níveis com base nas diversas relações e dinâmicas entre os personagens do filme.


E se engana quem pensa que isso pode tornar Fresh um filme pedante ou entediante. Com uma ótima dosagem entre comédia romântica e terror, a narrativa se mantém instigante e acerta perfeitamente seus momentos mais descontraídos e os que devem ser levados mais a sério. Isso sem contar no final satisfatório e até mesmo positivo, dadas às circunstâncias trágicas que acompanharam a protagonista e demais coadjuvantes – que por sinal, são as minhas únicas críticas negativas, visto que se apoiam em alguns tropos e estereótipos que já estamos cansadas de ver como a da melhor amiga negra e da asiática peculiar.


 

Fresh (2022)


IMDb | Rotten Tomatoes | Letterboxd | Filmow

Direção Mimi Cave

Duração 1h54min

Gênero(s) Terror, Suspense, Comédia

Elenco Daisy Edgar-Jones, Sebastian Stan, Jonica T. Gibbs +

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