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Diablo Rojo: bruxas e antigas tradições no primeiro filme de terror do Panamá

Falar sobre filme de bruxa é sempre uma tarefa prazerosa pela importância e discussões que essa figura feminina vem ganhando ao longo dos anos no cinema de horror. Seja na forma estereotipada como aquela que representa o mal, a vingança e a associação ao que é demoníaco, seja também pela forma metafórica ao levantar debates acerca das questões de gênero, maturidade e sexualidade. Gabriela Müller Larocca, doutora em História e especialista em cinema de horror e bruxas, traz em seu artigo de análise sobre o filme The Witch (2016, Robert Eggers), discussões pertinentes sobre esse maligno atrelado ao feminino ao longo dos séculos até chegar na representação que conhecemos hoje e amplamente divulgado no audiovisual.


No filme que iremos abordar essa semana, as bruxas se fazem presentes, mas através da lenda La Tulevieja, uma espécie de criatura, mãe vingativa e enlutada. Sua história é o mote para o primeiro filme de terror do Panamá, Diablo Rojo PTY, uma produção de 2019 dirigida por Sol Moreno e Jota Nájera. Nele, acompanhamos a jornada do motorista Miguel (Carlos Carrasco) e seu ajudante (Julian Urriola) que após um encontro horripilante, se metem numa tremenda enrascada.


Os dois estão em alta velocidade no ônibus e acabam cruzando com dois policiais de trânsito que passam a persegui-los. Miguel está bêbado e ao invés de parar, corre mais. É noite, e ao avistar uma moça na estrada, ele para o automóvel de repente e é aí que começa o martírio e a descida deles ao inferno. A mulher na estrada estava depenando uma galinha quando de repente se transforma em Josefina, um amor do passado de Miguel e logo em seguida vira uma criatura sinistra que termina por atacar um dos policiais decepando parte de sua mão. Várias bruxas aparecem e passam a persegui-los.



Eles entram no ônibus, fogem e na fuga sofrem um feitiço misterioso e como num salto temporal ao estilo Mágico de Oz, vão parar numa cidade chamada Chiriqui, um lugar carregado de lendas, folclore, mistérios e misticismo, que fica há seis horas da capital. Eles não entendem como foram parar lá e nem o motivo do relógio sempre marcar meia-noite. A perseguição continua até eles conseguirem se abrigar numa igreja, mas algo acontece e eles têm que fugir levando o padre junto numa fuga banhada a sangue, rituais com bebês, índios canibais, histórias do passado mal contadas, muita marijuana e uma criatura verdadeiramente assustadora e monstruosa.


Sol Moreno foi bastante feliz quando escolheu pelo regional para realizar seu primeiro longa-metragem, um folk horror deveras divertido e amedrontador nas horas certas. A forte presença cultural do país, como o ônibus diablo rojo que se caracteriza pelo formato escolar conhecido norte-americano, com pinturas coloridas exageradas, luzes néon e pela forma veloz como são dirigidos, acaba se tornando o refúgio do grupo nessa fuga alucinante e alucinada. À medida que a trama se desenvolve e os segredos vão sendo revelados, dá-se início uma história de vingança à la terror japonês sobrando até para A Hora do Pesadelo 2 como referência.



A escolha da fotografia escura também foi um acerto, pois dá ênfase a uma atmosfera de fantasia misturada com terror, deixando coisas aconteceram na base da sugestão, o que acaba sendo interessante. Não posso deixar de destacar também o trabalho com efeitos práticos na construção da figura da Tulevieja, a criatura lendária e horripilante que assusta qualquer um que cruze seu caminho.


Maitê Mendonça, jornalista, criadora de conteúdo sobre horror e pesquisadora do cinema de gênero latino-americano, entrevistou Sol Moreno em seu site Final Girl. Nele, a diretora conta que, mesmo morando 16 anos na Espanha realizando e participando de curtas-metragens, diz ter escolhido voltar às origens do Panamá para seu filme, muito pelas lembranças das antigas histórias que ouvia na infância e que ajudaram a formar sua identidade e seus gostos por coisas assustadoras.


Diablo Rojo já nasceu importante pelo seu pioneirismo e é bem nítido ser esse o trabalho de uma mulher que cresceu sendo fã e consumindo várias produções de gênero. É um cinema de horror cheio de referências às clássicas décadas de 50/60 e aí fica impossível não gostar. Ainda mais quando você tem quatro marmanjos e um padre que se pelam de medo de bruxas e saem correndo delas que nem loucos. É lindo! No Brasil, o filme percorreu festivais como Fantaspoa e Cinefantasy, agora é torcer para que entre em alguma plataforma e que mais pessoas possam ter acesso a essa obra.


Diabo Vermelho (2019)

Diablo Rojo PTY


IMDb | Rotten Tomatoes | Letterboxd | Filmow

Direção Sol Moreno, Jota Nájera

Duração 1h20min

Gênero(s) Terror

Elenco Carlos Carrasco, Julian Urriola, Leo Wiznitzer +


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