• Tati Regis

Cidade Invisível e nosso folclore tratado como adulto

Todorov, em seu Introdução à Literatura Fantástica, disse: “O fantástico é a hesitação experimentada por um ser que só conhece as leis naturais, face a um acontecimento aparentemente sobrenatural”. Para ele, o meio termo entre natural e sobrenatural é o que considera ser o Fantástico.


Produções que exploram lendas, folclores, contos de fada ou fábulas mundo afora, tem aos montes, sejam elas numa linguagem infantil como o famoso seriado brasileiro Sítio do Picapau Amarelo (adaptado a partir de Monteiro Lobato) ou num tom mais mais adulto, como por exemplo O Labirinto do Fauno (Guillermo Del Toro), Deuses Americanos (seriado adaptado de livro de Neil Gaiman) e a HQ Fábulas (escrita por Bill Willingham). É um mundo riquíssimo a ser explorado e a nossa cultura de lendas e fábulas também não fica para trás. Uma pena não conhecermos mais a fundo nossa própria história enquanto sabemos dizer de cor e salteado nomes de personagens de várias outras mitologias.



Em Cidade Invisível, a grande atração é essa linguagem mais adulta que nosso folclore ganha num tom que mistura realidade, fantasia, suspense, terror e policial. Aqui, temos o investigador da Polícia Ambiental Eric (Marco Pigossi), que após encontrar um boto cor de rosa morto numa praia, desconfia que o caso está conectado com a recente morte de sua esposa Gabriela (Julia Konrad) iniciando uma investigação junto com sua parceira Márcia (Aurea Maranhão) onde, além de descobrir coisas de seu passado, descobrem também um mundo invisível habitado por seres míticos que se misturam com humanos numa Rio de Janeiro geralmente não mostrada em grandes produções como o bairro da Lapa.


A série é criada e produzida por Carlos Saldanha para a Netflix, o mesmo nome envolvido em produções como A Era do Gelo e Rio. Em seu primeiro live action, Carlos entrega um material maduro e o elenco, embora genérico, é talentoso. Gostaria de ter visto mais da nossa diversidade. A parte sofrível da produção fica a cargo dos diálogos sem criatividade e burocrático cheio de explicações. Mesmo assim, foi uma baita surpresa essa série, a trama é envolvente o que faz você querer maratonar num dia só.



Na Lapa, vive Inês (Alessandra Negrini), personalidade soturna, dona de um bar dançante e uma entidade poderosíssima conhecida como bruxa, ou Cuca para os íntimos. Ao seu lado estão ainda Tutu (Jimmy London) o Bicho Papão (ou Tutu Marambá em alguns lugares do Brasil), Camila (Jessica Cores) a poderosa mãe das águas Iara, Isac (Wesley Guimarães) o Saci Pererê e o dissidente e amargurado Iberê (Fabio Lago) o Curupira. A cada início de episódio, ficamos sabendo um pouco mais sobre cada uma dessas entidades e sua origem e embora o foco real não seja neles, é interessante de ver o tratamento que é dado a essas figuras que se confundem e se misturam entre nós como moradores de periferia, ocupações ou disfarçados de mendigos, pessoas que quase nunca são notadas. As invisíveis.


Ainda existe um personagem misterioso que a ele é dada a alcunha de vilão, talvez a parte mais aterrorizante da história que envolve até possessão. Mas, falar dele mais que isso poderia configurar spoiler e não quero ser eu a estraga prazeres da experiência que é assistir e [re]descobrir nosso folclore. Uma coisa bacana que aconteceu aqui em casa e imagino que em vários lares, foi a cada final de episódio correr pra internet pra pesquisar sobre nossas lendas e livros que abordem o tema. Um mundo se abre e mil fitas começam a rodar sobre possíveis próximas temporadas. Seria interessante temporadas focadas em cada região do país.



Cidade Invisível traz uma subtrama com foco no personagem Ciço (José Dumont) envolvendo questões ambientais numa aldeia de pescadores. É nela que Gabriela, esposa do policial Eric, morre depois de um estranho incêndio na floresta que circunda a aldeia. Esse lugar é alvo de uma grande e poderosa especulação imobiliária, pois querem transformar o lugar num resort e Ciço é um dos poucos que ainda resiste e luta pelo seu lar. É um debate importante, já que na teoria, quase todas essas entidades se originaram ou viveram em florestas ou mares.


Essa abordagem do fantástico no audiovisual brasileiro não é novidade e ainda pouco se conhece sobre as produções já feitas aqui com o tema. O nosso Folclore já esteve presente em diversos filmes como Sinfonia Amazônica (1954, Anélio Latini Filho), primeiro longa de animação feito no Brasil e aborda diversas lendas da região norte. Outros exemplos: O Saci (1951, Rodolfo Nanni), Ele, o Boto (1987, Walter Lima Junior), Boi Aruá (1984, Chico Liberato) e Fábulas Negras (2014, Rodrigo Aragão), só pra citar alguns.


É bom demais se ver e se reconhecer numa produção desse porte e dessa qualidade, ainda mais quando faz esse resgate do folclore brasileiro trazendo para o debate o cuidado e a importância com a natureza. Cidade Invisíveldisponível na Netflix em sete episódios com média de 40 minutos cada.


Cidade Invisível (2021)


Disponível na Netflix

Criação Carlos Saldanha

Duração 1 Temporada (7 Episódios)

Elenco Marco Pigossi, Julia Konrad, Alessandra Negrini, Jéssica Córes, José Dumont, Wesley Guimarães +