• Tati Regis

Canto dos Ossos: a odisseia tropical vampiresca

É muito gratificante poder observar como o cinema brasileiro de gênero vem crescendo e tomando formas próprias. Somos o lugar em que se identifica uma imensa pluralidade de estilos, temas e abordagens do fantástico/horror. Isso só prova o quanto criativo e carentes de novas histórias somos, tendo orçamento ou não, a vontade de fazer e dar certo é maior. Alguns realizadores brasileiros conseguem imprimir uma certa identidade em suas obras, como no cinema de horror feito no Nordeste, por exemplo. É bem perceptível uma determinante e exagerada liberdade de temáticas e abordagens. E que bom!



Em Canto dos Ossos, filme cearense de 2020 dirigido por Jorge Polo e Petrus de Bairros, acompanhamos as aventuras e desventuras de "duas amigas monstras" que tomam rumos diferentes na vida. Naiana vira professora de literatura numa escola pública de Búzios. Diego, vive suas experiências homoafetivas noturnas no Canindé, bem longe de Naiana. Aparentemente parece simples, mas é carregada de simbolismos ao se utilizar de seres vampirescos como metáfora. Tem um texto de fundo narrado pela atriz Noá Banoba que torna a experiência de assistir Canto dos Ossos bem mais imersiva, pois parece querer nos tornar cúmplices nessa angústia de um ser monstruoso que ao mesmo tempo que perseguem a vida eterna, têm que tá o tempo todo fugindo de uma sociedade que nunca para de persegui-los.


Uma pena me convidarem apenas para a despedida, mas os monstros eram eternos. Desejava fazer parte deles, parte de seu interior esquecido, seu interior escuro, sombrio e transformador.

Interessante observar que, mesmo sendo um filme sobre vampiros, ele foge da figura mitológica que estamos acostumados a ver, aqui não temos aquele vampiro pomposo, rico, sedutor de indumentária impecável e fala mansa. Não mesmo. São personagens comuns e periféricos, bem mais próximo do nosso dia-a-dia e que andam até na luz do sol. É a professora da escola, o atendente de farmácia, a manicure, a aluna que gazeia aula pra fumar um. É muito mais como aquela turma de bairro que se conhece há anos e se juntam pra bater um papo, tomar umas cervejas e aprontar umas quando chega a escuridão. E é na penumbra, que toda a monstruosidade vem à tona, junto com muito sangue, gore e claro, erotismo. Isso foi o que mais me atraiu em Canto dos Ossos, essa mistura de fantasia grotesca com realidade.



É um filme tão fora das convenções, misterioso e cheio de vontade que você até releva as possíveis falhas que por ventura aparecerem, pois termina sendo o que menos importa nessa experiência sui generis sensorial cheia de camadas e texturas que é Canto dos Ossos. A história ainda envolve uma trama de cunho sobrenatural que te faz questionar quem são os verdadeiros monstros nessa odisseia tropical vampiresca.


O filme foi vencedor ano passado do prêmio de melhor longa-metragem da mostra Aurora da 23ª Mostra Tiradentes. Na edição desse ano que acontece toda online e vai de 22 a 30 de janeiro, outra produção cearense de gênero foi selecionada para a mostra competitiva olhos livres: Rodson ou (Onde o Sol Não Tem Dó) dos diretores Cleyton Xavier, Clara Chroma e Orlok Sombra. Pra ficar de olho!


Canto dos Ossos (2020)

Trailer | IMDb | Letterboxd | Filmow


Direção Petrus de Bairros e Jorge Polo

Duração 1h28min

Gênero(s) Terror, Fantasia, Drama

Elenco Rosalina Tamiza, Maricota, Lucas Nascimento, Noá Bonoba +