• Tati Regis

Candyman: do mistério à lenda

Uma dor assim dura para sempre. Esse é Candyman.

Sobre A Lenda de Candyman: gostei muito!! Remodelou toda a mitologia que envolve a lenda, o monstro e ainda acrescentou mais camadas sobre todo o terror negro e como a violência racial ainda é cíclica. Amei demais o olhar sensível da Nia DaCosta em não mostrar e não romantizar violências em cima de corpos negros. Uma boa observação que a Carissa Vieira faz em seu vídeo-análise sobre o novo Candyman e que concordo demais. (Aliás, obrigada Carissa por levantar toda essa discussão em cima dessa banalização e do olhar atento que devemos ter sobre a pornografia da dor.)


E aí quando acabei de assistir, fiquei muito pensativa sobre isso achando que tinha faltado alguma coisa que possa ter me causado frustração e, talvez seja esse olhar já acostumado a encarar o terror tendo essa visão viciada no sofrimento e banalizado sobre nossos corpos. Uma boa análise que o filme traz é a partir da obra de Anthony "Say My name", um espelho por fora, mas que ao ser aberto, mostra uma visão aprofundada sobre traumas, violências e opressões. Uma boa crítica sobre a decisão de ir além ou não do que se vê. O tal do "descer do pedestal do privilégio". Ou até quem sabe sobre um julgamento limitado a partir de um olhar não negro ou de quem não sabe o amargo dia-a-dia de sobreviver numa estrutura racista. Por que não ir além?



Por que não perceber que, o que não é horror pra você, pode ser pra alguém, como disse a pesquisadora Emanuela Siqueira ao se referir ao filme Atlantique (Mati Diop, 2019) numa palestra? Há uma constante sensação de horror e desconforto naquela trama e talvez esteja aí um ponto para uma boa reflexão. Alguns discursos na obra de Nia são bem sutis e ao contrário do que dizem, está longe de ser didático. Talvez panfletário e não tinha como ser diferente já que a proposta é dar outro significado ao monstro. Gosto muito também da forma que deram a Brianna como uma final girl extremamente inteligente e que sabe bem o que quer, para onde deve ir e não ir também como a cena mostrada dentro da igreja. Definitivamente, A Lenda de Candyman é um filme de grande inteligência, esteticamente bonito e até seu humor, muito por conta das raízes do Jordan Peele, é bem dosado. Não é um filme feito para educar ou para chocar o olhar branco. Não mesmo.


Toda essa discussão ressignificada gira em torno do artista plástico Anthony McCoy (Yahya Abdul-Mateen II) e sua namorada, Brianna (Teyonah Parris), uma curadora de arte. Eles moram junto num apartamento de luxo onde antes existia o projeto Cabrini-Green. O bairro, agora gentrificado, é motivo de crítica e do conceito das pinturas de Anthony. Muito me agrada a forma respeitosa com que o filme de 1992 é tratado e recapitulado numa estilosa animação de teatro de sombras mostrada enquanto Troy (Nathan Stewart-Jarrett), irmão de Brianna em visita a irmã para apresentar seu namorado branco, conta a história de Helen Lyle e Candyman.


Somos formados pelas sombras, pelos traumas e pelas dores. Anthony se torna cada vez mais obsessivo com a história de Candyman e instigado por Burke (Colman Domingo), um antigo morador do projeto habitacional e um verdadeiro guardião de mitos, passa a querer cada vez mais adentrar no universo da lenda urbana. Quando está tirando fotos do lugar, ele é picado por uma abelha e a consequência disso é horripilante e maravilhosa por todo o significado que carrega. Há uma degradação não só física, mas psicológica também. Vários pontos e vários aplausos à equipe de roteiristas que optaram pela metáfora da formação da colmeia, um body horror de responsa que deixa até o próprio Cronenberg orgulhoso de seu legado. Minha única reclamação ao revisitado Candyman é a duração. Uns 20 minutinhos a mais pra desenvolver melhor aquele final seria interessante. E aí fica a questão: teremos de volta a franquia e um novo mito do homem dos doces para amar? Eu quero, e vocês?


Ah, já ia esquecendo: TE AMO TONY TODD!

A Lenda de Candyman (2021)

Candyman


IMDb | Rotten Tomatoes | Letterboxd | Filmow

Direção Nia DaCosta

Duração 1h31min

Gênero(s) Terror, Suspense

Elenco Yahya Abdul-Mateen II, Teyonah Parris, Colman Domingo +


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