• Tati Regis

Blácula, O Vampiro Negro

A discussão hoje sobre corpos negros ocupando o cinema de gênero já está bem avançada e relevante, tanto é que temos materiais diversos de pesquisa sobre o assunto a exemplo do livro da Drª Robin Coleman o Horror Noire que derivou também o documentário de mesmo nome no ano de 2019. Mas, nem sempre foi assim. Na década de 1970, toda essa discussão e problemática sobre representatividade vinha ganhando força junto com o movimento dos direitos civis até culminar no blaxploitation já explicado rapidamente nesse texto aqui.


Blácula, o Vampiro Negro, filme de 1972 dirigido por William Crain e estrelado por William Marshall e Vonetta McGee, foi um dos grandes exemplares do blaxploitation e do terror negro. Aliás, foi o primeiro filme de terror desse movimento. Além de trazer a apropriação de um monstro clássico da literatura e do cinema, Blácula lança à luz debates importantes para a época como a representatividade negra em telas, a perda da identidade e o racismo.



Tudo começa no ano de 1780 com o príncipe africano Mamuwalde (William Marshall) indo com sua noiva Luva (Vonetta McGee) ao castelo do Conde Drácula (Charles Macaulay) na Transilvânia para negociar a suspensão do comércio de escravos. O Conde demonstra um comportamento extremamente arrogante e a negociação termina dando errado pelo tremendo desrespeito do deste para não só o príncipe e seu povo, como para Luva ao tratá-la como um objeto. Nota-se aqui uma inversão de narrativas ao configurar o Drácula como um ser desprezível, racista e que não se faz de rogado ao demonstrar desdém e deboche pelo apelo de Mamuwalde. Ele chega a dizer: "acredito que a escravidão tenha seu mérito".


Depois de tanta barbárie proferida, eles entram em luta corporal e é aí que o Conde Drácula transforma o príncipe num vampiro, o rebatiza de Blácula, prende Mamuwalde num caixão e termina por escondê-lo numa cripta do castelo. 200 anos depois, um casal de decoradores, um negro e um branco, compram o castelo de Drácula, acham o caixão e dão um jeito de levá-lo até Los Angeles para usar como peça decorativa. Blácula é libertado e a partir de um corte no pulso do decorador branco, o Vampiro Negro experimenta o sangue pela primeira vez e mata assim a sua fome. Ele agora está solto na cidade e dá de cara com aquela que ele jura ser a reencarnação de sua amada Luva, Tina (interpretada também por McGee).



A trama se desenvolve em meio a uma investigação policial, algumas aventuras, mortes, sangue e muito swing graças a uma trilha sonora com muito funk e soul, bem característico do blaxploitation. Há também as velhas problemáticas sobre os estereótipos, assim como a homofobia que é gritante no filme. Mesmo com todas essas questões e um orçamento bem apertado, Blácula é uma produção que se leva a sério e isso se deve muito ao fato de ser interpretado pelo ator de teatro shakespeariano e cantor de ópera William Marshall. Ele dá o tom sério que um filme de vampiro exige. Cheio de cenas memoráveis como a do necrotério quando Juanita Jones acorda e ataca o médico legista. Uma personagem ícone!


O filme tem também cenas de tremenda brutalidade do vampiro com policiais brancos. Isso foi um dos motivos que fizeram os afro-americanos lotarem as salas de cinema. Além disso, o departamento de marketing da AIP promoveu exibições gratuitas para quem fosse ao cinema com uma capa esvoaçante. Eu iria super de boas. E assim, por tudo isso e mais um pouco, Blácula se tornou um dos filmes de maior bilheteria do ano de 1972. Aproveite para conferir no Telecine e na Darkflix essa belezinha de filme quebrador de barreiras. Tem também uma sequência chamada Scream Blacula Scream (Bob Kelljan, 1973) estrelando Pam Grier dividindo tela com William Marshall, que volta no papel de Blácula. Outras adaptações de clássicos para o terror blaxploitation ganharam vida como Blackenstein (1973) dirigido por William A. Levey e Dr. Black and Mr. White (1976) dirigido por William Crain.

Blácula, O Vampiro Negro (1972)

Blacula


IMDb | Rotten Tomatoes | Letterboxd | Filmow

Direção William Crain

Duração 1h33min

Gênero(s) Terror, Fantasia

Elenco William Marshall, Vonetta McGee, Thalmus Rasulala +


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