• Monique Costa

“Bit” e suas vampiras feministas

A mitologia dos vampiros já está tão enraizada em nossas cabeças, que cada vez mais os artistas se sentem confortáveis para brincar, deturpar e/ou corromper essas tidas regras. Já vimos vampiros que saem na luz solar tranquilamente, vampiros que não fogem da cruz, e até mesmo vampiros que não se alimentam exclusivamente de sangue humano – e a boa notícia é que existe ainda muito a se subverter dessas criaturas fascinantes.


Em Bit, o terceiro longa do diretor e roteirista Brad Michael Elmore, acompanhamos uma dessas tentativas de subversão, uma vez que o enredo é focado num grupo de vampiras com a regra crucial de não permitir a vampirização de homens. Mas mais do que isso, é também um divertido coming of age com espaço para inúmeras discussões relevantes.


Laurel (Nicole Maines) é uma jovem recém formada no ensino médio, que se muda para a casa do irmão em Los Angeles, na tentativa de fugir da vida pacata do interior. E já na sua primeira noite, ela decide comemorar em um bar, onde conhece Izzy (Zolee Griggs), uma diretora de clipes musicais que busca mais do que um encontro casual: ela quer sangue!



No entanto Duke (Diana Hopper), a chefe do grupo, enxerga potencial em Laurel, e decide transformá-la em uma das suas, nos levando a uma jornada clássica de vampiros, onde acompanhamos as garotas buscando sobrevivência, e enfrentando não só suas vítimas, como também alguns caçadores, além de outros vampiros e seus lacaios vingativos.


O mundo é um moedor de carne, garota. Especialmente se você é uma mulher. Você não precisa de um slide em Power Point para saber que é verdade. Estamos politicamente, socialmente e mitologicamente fodidas. Nossos papéis são secundários, nosso corpo é misterioso e estranho. Somos feitas para ser monstros, então vamos ser monstros.

E se a primeiro momento Bit parece ser só mais um teen movie, em seu desenvolvimento descobrimos que ele é isso e muito mais. Abraçando e referenciando diversos clichês do gênero, ele também nos apresenta diálogos e discursos feministas de forma bem natural e justificada, com personagens diversas e interessantes, além de uma história instigante e inovadora, e isso sem falar em sua estética e composição.



A escolha de ter dado o protagonismo para uma personagem e atriz trans também chama a atenção, ainda mais pelo fato de que o diretor tomou a decisão consciente de não tornar isso o mote principal da trama. Ao invés disso, notamos mais em forma de subtexto, como quando Duke nem se quer duvida do pertencimento de Laurel no grupo, ou pelo próprio discurso de mulheres tomando controle sobre suas feminilidades.


Se há algo a criticar negativamente o filme, talvez seja uma ineficácia em lidar com toda a potência que se propôs a trabalhar. Um exemplo é o pouco desenvolvimento e tempo de tela das personagens Roya (Friday Chamberlain) e Frog (Char Diaz). A forma como o final é apresentado também pode levantar questionamentos ou até mesmo levar a suposições erradas para quem não está tão dentro dos debates feministas.


Mas mesmo com esses pequenos desvios, Bit continua sendo uma ótima pedida para os fãs de vampiros. Não só pela sua premissa, como também pela sua mitologia própria, suas sacadas pontuais e suas possibilidades de discussões. E por mais que eu não seja muito fã de sequências e franquias, acredito que a história e suas personagens têm potencial o suficiente para uma continuidade, e adoraria ver esse grupo de vampiras novamente!


Bit (2019)


IMDb | Rotten Tomatoes | Letterboxd | Filmow

Direção Brad Michael Elmore

Duração 1h30min

Gênero(s) Terror, Comédia

Elenco Nicole Maines, Diana Hopper, Zolee Griggs +




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