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  • Foto do escritorMallu Correa

Minhas obviedades sobre Barbarian

(mas minha terapeuta disse que o que é óbvio pra mim pode não ser para os outros)


Poucas vezes na vida vou defender filmes dirigidos por homens. Acredito que o mundo como conhecemos já dá crédito demais para as coisas mais medíocres feitas por eles, então quem sou eu para aumentar esse ego numa multidão de outras pessoas mais interessadas. Mas, felizmente, também não sou de toda injusta e acredito que quando alguns acertam, eles realmente acabam acertando o fundo de meu coração junto. Ari Aster fez isso com “Midsommar”, Robert Eggers fez isso com “A bruxa” –e, na minha humilde opinião, seu único acerto também-, Jordan Peele eu ainda não vi errar, mas “Nós” tem um cantinho especial no meu coração, além de Mike Flanagan que as vezes escorrega, mas acaba se redimindo, “A maldição da mansão Bly” que o diga.


Então, apesar de sempre manter dois pés atrás com homens entrando em assuntos que não são lá muito a praia deles, também acho importante ressaltar quando acertam e poder dizer “tentem imitar, galera, esse aqui fez algo bom”. Afinal, a indústria do horror como conhecemos está cheia de imitações, e em grande parte das vezes de uma obra horrível com uma cópia péssima. Então hoje não vou só dar os créditos, como também vou defender. Apesar de que, é claro, para o bem ou para o mal, ainda é uma mísera opinião numa multidão de pessoas desinteressadas.


Quando as primeiras notas e críticas de Barbarian saíram, já bradavam aos sete cantos desse mundo como filme do ano. O que, confesso, duvidei. Apesar de ter uma inclinação enorme para gostar de filmes com Bill Skarsgard como protagonista por motivos óbvios, a premissa de um equívoco em um AirBnb como motor para um terror, na minha opinião, só podia dar errado. Aliás, essa não é a mesma premissa de uma comédia romântica de qualidade duvidosa da Netflix que estreou alguns meses antes? Não sei, mas enfim, não é só esse o motivo, mas também por isso ser, obviamente, um prato cheio para uma história com mulheres sendo violentadas, o que também parece ser um prato cheio e óbvio para a maioria dos homens quando eles querem fazer um filme de terror.


Para a minha felicidade, eu estava errada sobre o filme. Aliás, aqui em casa foi #1 com certeza, o melhor do ano. Mesmo que Pearl tivesse se esforçado e que o Jordan Peele novamente não tivesse errado, o que o Zack Cregger conseguiu fazer aqui é digno de, minimamente, uma defesa de minha parte.

Acredito que, como toda obra cinematográfica, algumas críticas são válidas, ainda mais a um diretor estreante dentro do gênero que não é tão fácil assim de ser feito. Cregger peca um pouco no ritmo das duas partes finais, mesmo que eu tenha adorado os cortes bruscos indecifráveis. Além de também acabar tentando colocar a carroça na frente dos bois e querer abraçar o mundo com uma narrativa de pouco mais de uma hora e meia, deixando algumas ideias e contextos um pouco rasos.


Mas eu vou dizer, senhoras e senhores, que Zack Cregger não peca em seus vilões. E acho que, para um bom funcionamento de um filme de horror o vilão é o essencial. Até porque de mocinho tá todo mundo um pouco cansado. Ninguém compra mais essa narrativa pacata de bom vs mal. O que a gente quer ver é porque o mal faz aquilo, o que aconteceu pra fazer aquilo, é perdoável suas ações frente ao seu pano de fundo?


Perdoem-me, pois sou uma romântica incurável, amo apenas os monstros. E principalmente aqueles que me dão uma explicação palpável por ser. Me identifico quando o Del Toro disse que “os monstros que eu acredito são os santos padroeiros da nossa feliz imperfeição”. Não é a toa que Frankenstein é o que é, apesar da deturpação que sofreu ao longo do tempo. Shelley escreveu sobre uma criança que não teve amor, não escreveu sobre um monstro que matava sem escrúpulos. Mesmo que certos homens tenham interpretado assim. (Que isso James Whale? Indireta pra você, fofo? O que vem de baixo não me atinge).


Mas voltando a Barbarian... passei por algumas críticas ao filme que o colocavam num patamar um tanto quanto equivocado em relação aos filmes de horror contemporâneos. Existe –e isso não nego- um aumento preocupante de filmes feitos por homens em que a vilã está sempre sendo representada por uma mulher idosa. E aí vem a questão que perpassa: por que os homens têm medo de mulheres velhas? E acredito que isso deva ser questionado, apontado e criticado. Afinal, a juventude contrastada com a velhice como um embate entre bem e mal interessa a quem? (Alô, Ti West).

Simone de Beauvoir, em seu livro “A velhice” (1970), vai abordar sobre como o envelhecimento é visto dentro de uma sociedade capitalista, que valoriza o ser humano apenas enquanto ele tem uma utilidade para a economia, o colocando a margem no futuro. Além disso, também é perceptível que o contexto do “envelhecer” é sempre relativo, sendo necessário compreender também essa questão levando em conta o gênero, a raça e a classe dentro da sociedade.


Entretanto, é claro que há um peso no envelhecimento feminino que, para além de perder sua vitalidade, perde-se também, considerando uma sociedade em que os padrões estão altamente associados a juventude, sua beleza. Naomi Wolf fala sobre isso em “O mito da beleza” (1990), dizendo que existe uma considerável diferença no tratamento de homens e mulheres quando os mesmos atingem uma idade de 40 a 50 anos, enquanto os primeiros são vistos no auge de sua vida, as mulheres são vistas começando a declinar.

Ou seja, quando elas atingem uma idade ainda mais avançada, se deparam com a perda de tudo aquilo que tinham que era considerado “bonito” pelos outros. Mais especificamente, pelos homens, o que também acaba afetando o conceito do que as próprias mulheres acreditam para elas mesmas. Não é à toa que cremes e óleos antienvelhecimento são vendidos a rodo dentro da indústria de cosméticos. Então, é claro, que em uma sociedade que enxerga o envelhecimento como o declínio de um corpo e de um sujeito, torna também natural que os filmes comecem a refletir esses pensamentos.


Mas ao mesmo tempo, eu me pergunto, se uma pessoa que acredita que Barbarian cai nesse estereótipo realmente assistiu ao filme. A “vilã” de Barbarian está longe de ser velha, segundo o próprio filme. Apesar de existir um estado sobrenatural na mesma, não me parece que ela foi “feita” com o intuito ou tinha condições de viver muitos anos. E ainda que exista nela uma construção visual de –ta rã- monstro, isso não significa que esse visual foi atrelado ao de uma mulher velha. Considerando que a tal vilã é uma mulher que nunca viu além do alçapão ao qual foi condenada, que nunca se conectou socialmente e não tem nenhum outro tipo de inspiração para seguir além de uma fita colocada muitos anos antes, me parece natural que ela não corte as unhas ou use maquiagem. E isso não é ser velha.

Então, acredito que as críticas devem ser feitas, como em toda obra de arte. Mas não acho justo desmoralizar uma obra que, apesar de alguns defeitos, merece toda aclamação que recebeu. Aliás, poucas vezes na vida gritei com uma tela de falar “caralho, é isso!”, mas é impressionante como Barbarian conseguiu transpassar um sentimento genuíno de indignação quando mostra as diferentes reações entre um homem e uma mulher se deparando com um quarto escondido num porão (apesar que como todo filme de terror, os personagens tem que ser um pouco estúpidos também). Mas eu posso lhe garantir que nenhuma mulher em sua sã consciência pegaria uma fita métrica nessa situação.


Além de podermos perceber no filme que ainda que existam –muitos- monstros pairando sobre a narrativa, Cregger consegue entregar um terror sem mostrar explicitamente uma violência contra as mulheres. O que acaba fazendo com que ele se torne interessante de ser assistido, e não um grande martírio para as espectadoras. Mesmo que o tema seja explorado, é raro o cuidado do diretor para que isso realmente não seja visualizado. Acreditem se quiserem, homens, é possível fazer um filme de horror sem explorar a violência contra o corpo feminino! Apesar de que, pra gente é óbvio, né? Mas dizem por aí que o óbvio precisa ser dito, então resolvi tentar.

 

Barbarian (2022)

Noites Brutais


Direção Zach Cregger

Duração 102 min

Gênero(s) Terror, Mistério

Elenco Georgina Campbell, Bill Skarsgård, Justin Long +


156 visualizações4 comentários

4 Comments


Leonardo Medeiros
Leonardo Medeiros
Jul 11, 2023

Queria entender melhor seu ponto de vista sobre X/Pearl, porque deu a entender que você acha problemática a vilã de X. E eu já não sei se acho, visto que a Pearl não enlouqueceu puramente por seu desejo de se tornar estrela mas por um conjunto de fatores. Esperava que você fosse desenvolver mais o texto, com alguns pontos do filme também. Eu honestamente não curti as viradas de Barbarian e acho o final dele bem tosco, embora até curta como ele estabelece a diferença de como homens e mulheres lidam com a mesma situação.

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liara.bna13
Feb 27, 2023

Apesar de não ter gostado tanto do filme por achar que perde o ritmo as vezes, realmente foi uma ótima análise e muito bom pontuar como é tratado os traumas e abusos de mulheres sem precisar ser explícito. Arrasou, Mallu!

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marinantess
Feb 27, 2023

Achei uma análise excelente!

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Andrei Simões (Escritor)
Andrei Simões (Escritor)
Feb 27, 2023

É meu filme preferido de 2022, com Terrifier 2 e Bodies, Bodies, Bodies logo em seguida.

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