• Tati Regis

Resurrection (2022)

O medo nada mais é do que o estado ou sensação de estarmos em perigo. Ao longo da vida e das experiências, boas ou más, aprendemos que esta sensação também é relativa. Resurrection, filme escrito e dirigido por Andrew Semans, trabalha isso de uma forma intensa. O medo que nós, mulheres, passamos em relacionamentos abusivos. Mesmo que tenha sobrevivido a essas experiências, as lembranças se tornam um fantasma que volta e meia aparece para assombrar. O filme é dirigido por um homem e logo mais questiono isso, mas me fez lembrar automaticamente de outros filmes recentes que abordam homens sendo tóxicos como o Men, Fresh e Watcher.



Para iniciar, Margaret (Rebecca Hall) é mostrada como uma mulher que está no controle. Forte, independente, bem sucedida no seu trabalho, pratica exercícios, tem caso com um homem casado e isso pouco importa para ela. Em casa, Margaret também mantém seu apartamento no controle e impecável, menos sua filha Abbie que está prestes a completar 18 anos. Ela é amorosa com a adolescente, mas também super protetora e isso incomoda demais a menina. Margaret parece uma pessoa impecável e inquebrável, até que tudo isso desmorona quando alguém de seu passado ressurge. David Moore (Tim Roth) aparece em locais específicos em que Margaret se encontra e até aí não sabemos se de forma intencional ou mero acaso. O que vemos é Margaret ficar extremamente perturbada e a aparência inquebrável dela, se desfaz rapidamente com frequentes ataques de pânico e paranóias. Rebecca Hall é uma brilhante atriz e confesso que o que me chamou atenção para essa produção foi ter seu nome envolvido. Ainda não sabemos o que deixa sua personagem perturbada até que numa conversa com sua estagiária, ela nos entrega toda sua história de vida, de violência e manipulação num monólogo deveras perturbador onde a câmera não desgruda do rosto dela durante quase oito minutos. Tenso! Me fez lembrar porque aqui em casa louvamos de pé Rebecca Hall sim, amém.


A aparição desse homem se torna mais frequente e a queda de Margaret à loucura e a paranoia, também. Tim Roth está maravilhoso no papel de um homem detestável, cínico, violento e manipulador. Daqueles que morde e assopra capaz de dizer que ela é uma mulher forte e guerreira desde que ela ande descalça de casa até o trabalho por uma semana e assim ele a deixa em paz. Que ódio! A relação dos dois se deu quando Margaret ainda tinha 19 anos e fez um estrago substancial no psicológico dela, mesmo sem ver o ex durante 22 anos. A história de tantas mulheres reais que conhecemos, não é mesmo? Eu moro em Pernambuco, um dos estados que mais assassina mulheres. O número de feminicídio só cresce e enquanto nós seguimos sendo punidas, desacreditadas e tratadas como loucas até sermos mortas, homens seguem sendo livres reconstruindo suas vidas. Margaret chega a ir na polícia, mas passa pelo que milhares de mulheres passam recebendo conselhos inúteis e olhadas enviesadas. No entanto, Margaret segue disposta a proteger sua filha colocando em risco a sua relação com Abbie. A mãe poderia se abrir com a filha? Poderia. Mas, ao mesmo tempo, fico pensando na reação da estagiária na ocasião do monólogo e imagino o motivo dela não ter confessado tudo para a filha nem para ninguém. Ela preferiu guardar só para si todo esse horror. Margaret desce cada vez mais para um abismo e segue sua batalha com David, cada vez mais cínico e manipulador e ela cada vez mais quebrada. Sua deterioração é notável e não só mental, mas física também.


O ato final de Resurrection é onde para mim acontece a completa ruptura do que vinha sendo construído pelo diretor. Nem sempre dá para ser da forma que a gente quer ou espera ser e Andrew Semans nos surpreende nesse quesito apelando para um traumatizante horror corporal. Para mim, embora impactante e aberto a diversas interpretações, a escolha não funcionou e acabei entrando no mérito de questionar: e se fosse uma mulher escrevendo esse roteiro? Eu não embarquei, mas pode ser que você embarque e tá tudo bem. E mesmo com o final sendo frustrante para mim, Resurrection ainda assim é um filme que perturba por horas sobremaneira nós, mulheres.


Resurrection é o segundo longa de Andrew Semans que já tinha dirigido em 2012 "Nancy, Please" e teve sua estreia no festival de Sundance em janeiro de 2022. Nos EUA foi lançado em julho nos cinemas pela IFC Films, teve os direitos adquiridos pela Shudder e no início de agosto ficou disponível para VOD.


 

Resurrection (2022)


IMDb | Rotten Tomatoes | Letterboxd | Filmow

Direção Andrew Semans

Duração 103 min

Gênero(s) Suspense, terror

Elenco Rebecca Hall, Tim Roth, Grace Kaufman +


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