• Isabela Picolo

O Telefone Preto (2022)

Qual é o maior medo de uma criança?

Finn é um garoto que sofre com o pai violento e alcoólatra, mas tem uma ligação muito forte com sua irmã mais nova. Um dia saindo da escola, ele é sequestrado e colocado em uma Van preta. No cativeiro em que ele fica preso, há um telefone preto com os fios cortados, mas misteriosamente Finn pode ouvi-lo tocar e se comunicar com os espíritos que ‘ligam’ para ele, dando pistas para ele sair de lá.


O Telefone Preto tem muito do que geralmente o público gosta em filmes de terror. Aqui os subgêneros psicológico e sobrenatural casam muito bem e apresentam uma fórmula que pode não inovar no gênero, mas traz elementos interessantes, como a maneira em que o telefone é usado. Estamos falando de um conto de Joe Hill de mesmo nome, que usa o telefone como uma forma de conexão com o além, algo pouco trabalhado em filmes. O telefone como conhecemos geralmente, é usado de forma ameaçadora, pois é visto como algo assustador para os protagonistas. Quem ou o que está ameaçando do outro lado da linha?


O filme nunca se propôs a vender algo além do que a gente já sabia previamente sobre ele. Isso com certeza é um ponto positivo, já que eu sempre falo que um marketing pode sim estragar a experiência de um filme por gerar o famoso hype. Claro que isso não é algo apenas fruto do marketing, as pessoas também estão ansiosas para ver Ethan Hawke no terror novamente ao lado de Scott Derrickson. Para quem não lembra, a dupla trabalhou em Sinister (2012). A questão é que como o novo vilão, Ethan entrega tudo. Ele consegue fazer um personagem sádico e contraditório, conflitante. ‘The Grabber’, como é chamado popularmente, não fala muito, mas tem uma forma de se expressar através de sua máscara, que muda conforme o seu humor. O trabalho desse acessório incrível foi feito por Tom Savini. Seu jeito meio infantilizado também traz algo muito peculiar para o personagem.


Lon Chaney e seu legado

O ator que era conhecido como ‘o homem de mil faces’ deixou uma herança importante através de seu trabalho. Ele era inovador para sua época e deixava o público impressionado com suas criações. Não podemos deixar de citar a referência a ele no filme Telefone Preto. O visual do sequestrador remete um pouco ao Chaney em London After Midnight.



Não há apenas um personagem que se destaca nesse filme, o elenco das crianças ficou incrível. Foi ótimo ver novos rostos e não as mesmas crianças de sempre no terror. A dupla de irmãos Gwen (Madeleine McGraw) e Finney (Mason Thames) está perfeita. No mesmo núcleo familiar tem o pai, interpretado por Jeremy Davies, um personagem amargurado e que desconta toda a sua raiva e frustração no álcool e em seus filhos.


Spoilers abaixo!
 

A semelhança de Finney com o sequestrador pode ser apenas uma coincidência (ou não), mas ele começa a ter sentimentos conflitantes pelo garoto. Talvez eu tenha me iludido achando que era verdade, mas parece que ele vê algo de especial, justamente pelo fato de que os dois conseguem ouvir o telefone. Essa é a única vantagem aparente que Finn tem sobre os outros garotos que não conseguiram escapar. Embora ele não enxergasse sua força por não conseguir se defender, antes de ser sequestrado ele passa por um teste na sua vida para algo que ele nunca esperaria ter que experienciar. É como se tudo que tivesse acontecendo ao redor dele ultimamente (problemas na escola relacionados a bullying e violência, pai violento e alcoólatra), estivesse o preparando para o que estava por vir.


Geralmente há sempre um personagem colocado no filme apenas para morrer e que não agrega para a trama. Nesse filme em partes temos Max, o irmão do sequestrador, que acaba desequilibrando toda a rotina do assassino, mas não vi nada a ponto de atrapalhar os feitos dele. Max é obcecado pelo caso, mas não faz ideia de que é seu irmão que está por trás de tudo. Em algum momento podemos pensar que é ele que ajudará Finn a sair de lá, mas não é bem isso que acontece. Eu não me incomodei com o fim dele, pois para mim a mensagem foi clara: o assassino pode estar debaixo do seu nariz e você nem vai perceber. Ele pode representar também os detetives de internet que apareceram com o passar dos anos tentando resolver os casos em fóruns online e procurando pistas.


Tudo acaba dando certo porque Finn tenta tudo que as vítimas fizeram previamente, ou seja, cada uma das tentativas se complementam para que ele pudesse sair de lá e, ironicamente, o telefone ‘inútil’ que o assassino tanto não se importava foi a salvação final.

O artifício do telefone ser a peça chave para uma salvação já foi explorado até em filmes que não são de terror. Em Cellular (2004), um telefone aparentemente quebrado é a salvação da protagonista, mas lá nada é sobrenatural. Como dito lá em acima, não é sempre usado para esse fim, e sim o oposto, como forma de ameaça.


O filme é uma adaptação de um simples conto de Joe Hill, que não tenta dar mais do que pode oferecer e trabalha de forma coerente (dentro do possível) o sobrenatural, entregando uma trama sem nada de mirabolante e nem plots espetaculares e imprevisíveis. Não é isso que o filme queria fazer e nunca deixa sinal de que pode ou não ser outras coisas.


Não dá para negar que as expectativas estavam altas e o que eu mais estava esperando funcionou. Vi personagens bem construídos, um vilão icônico, marcante e que como já haviam comentado por aí, é provável que seja mais explorado futuramente em outros filmes. Se isso é bom ou não, só esperando para ver.


O Telefone Preto estreia amanhã, dia 21 de julho nos cinemas.

 

O Telefone Preto (2022)

The Black Phone


IMDb | Rotten Tomatoes | Letterboxd | Filmow

Direção Scott Derrickson

Duração 103 min

Gênero(s) Suspense, terror

Elenco Ethan Hawke, Madeleine McGraw, Mason Thames +


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