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  • Tati Regis

Nanny (2022)

Longe de ser um terror clássico, mas que ainda assim vai te assombrar, Nanny, longa de estreia da diretora Nikyatu Jusu e que estreou no Prime Video no último dia 16, conta uma fábula de horror sobre imigração, trauma geracional e pertencimento. Anna Diop (Titãs, Nós) é Aisha, uma senegalesa que deixa tudo para trás para viver o sonho americano e construir uma nova vida em Nova York. Lá no Senegal ela era professora de inglês e francês, nos EUA se tornou babá de uma família bem sucedida e tenta juntar dinheiro para trazer seu filho Lamine que não vê há quase um ano. Seu sonho é poder comemorar o aniversário dele de sete anos juntos no país novo. Ela cuida de Rose (Rose Decker), filha de Amy (Michelle Monaghan, True Detective) que não aparece muito em tela, mas tem seus momentos marcantes. Ela é uma executiva que sabe de suas qualificações, mas sabe também que ser mulher em cargo de chefia nesse meio é complicado. Já o pai de Rose, Adam (Morgan Spector), parece ser gente boa, mas longe da esposa, se comporta como um babaca, embora seja atencioso e carinhoso com a filha. A relação de Rose com a mãe parece ser burocrática, cuidadosa, leva a alimentação da filha na rédea curta com alimentos saudáveis e quase sem tempero. Rose logo se encanta pelo tempero e comidas típicas do país de Aisha, que inclusive, dá a Rose escondido da mãe.

A separação e a distância do filho, fazem Aisha ter visões perturbadoras e pesadelos frequentes com água, figuras e símbolos de sua cultura nativa. É tudo misterioso, o que faz criar bem o drama e a tensão que a história pedem na primeira metade do filme na construção do background e desenvolvimento da personagem e, longe de ser construído em cima de clichês e soluções fáceis, Nanny te dá respostas, mas em seu próprio ritmo e sem pressa. Garanto que o final vai te deixar quebrado tamanho o pesadelo que é, afinal "somos assombrados pelo que deixamos para trás".


Anna Diop é sem comentários, está incrível como essa mãe perdida entre dois mundos e que não pertence a nenhum deles, mesmo quando baixa a guarda e tenta estabelecer raízes ao namorar o gatérrimo Malik (Sinqua Walls), porteiro do prédio em que Aisha trabalha e também pai solo de um menino. Malik mora com a avó (Leslie Uggams), uma senhora elegante, de ótimo gosto para decorar casa e que tem uma sabedoria ancestral sobre a cultura de Aisha, é quando ela fica sabendo mais sobre a criatura marinha mitológica que tanto lhe perturba o sono. Seu drama e sua história são pesados e ela carrega tudo isso nas expressões, no olhar e quando se comunica com o filho de vez em quando por chamada de vídeo. Nikyatu sabe como trabalhar isso e sabe bem como e para onde direciona sua câmera, é tudo muito bem cuidado e dá a impressão que, assim como Jordan Peele, nada ali em tela é colocado à toa.


A história de Aisha poderia ser de muitos imigrantes que deixam tudo para trás para tentar uma nova vida e Nanny tem muito dessas experiências, principalmente de mulheres que fazem mais esse trabalho doméstico. É muito bom ver em telas essas histórias sobre traumas sendo trazidas, esse ano já tivemos um filme sobre o racismo acadêmico e dirigido por uma mulher, a Mariama Diallo com seu Master que também está disponível no prime. Olhares e mudanças de perspectivas são necessárias e arejam o gênero do horror que é tão atrativo para o político e social.


Nikyatu é escritora, diretora, produtora, editora e professora de cinema e vídeo na George Mason University. Nasceu em Atlanta, Geórgia e é filha de imigrantes serra-leoneses, formou-se como Bacharel em Estudos de Cinema e Vídeo em 2005 e estudou cinema narrativo na escola de pós-graduação Tisch da Universidade de Nova York. É uma mulher atenta à indústria de Hollywood, sigo ela no twitter e faz reflexões sempre pertinentes a respeito desse meio e da relação de mulheres negras com essa indústria, uma vez interagi com ela e me respondeu em português, super atenciosa. Seu longa de estreia venceu o grande prêmio de júri de Sundance, mas ela não é estreante na direção, já dirigiu curtas como o African Booty Scratcher (2007), Flowers (2015) e Suicide By Sunlight (2019), um curta sobre uma vampira negra que caminha de dia protegida pela melanina de sua pele que, inclusive, ganhará uma adaptação para longa-metragem produzido por Jordan Peele. Quero muito ver e tem disponível no YouTube, porém sem legendas, se isso não for um problema para você, cai pra dentro. Além disso, dirigiu alguns episódios de séries e está cotada para fazer a sequência do clássico A Noite dos Mortos-Vivos de 1968, com roteiro de LaToya Morgan. Estou animada.


 

Nanny (2022)


IMDb | Rotten Tomatoes | Letterboxd | Filmow

Direção Nikyatu Jusu

Duração 98 min

Gênero(s) Terror, Drama, Suspense

Elenco Anna Diop, Michelle Monaghan, Sinqua Walls +



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