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  • Foto do escritorMyka Carvalho

Infinity Pool: suas roupas (e pessoas) muito ricas

Ninguém esperava menos de um filme dirigido por alguém com o sobrenome Cronenberg. Infinity Pool tem algo de muito especial, e não somente por Brandon ser filho do já aclamado David Cronenberg quando olhamos as entrelinhas: toda cena é extremamente pensada e executada com detalhes sofisticados. Brandon trabalhou com a figurinista Mária Fáter, que apesar de experiente, não tinha nenhum filme tão grande até então em seu currículo.


É importante ressaltar que as roupas em uma obra visual não são somente tecidos pensados para um roteiro. São também um modo de analisar, até poeticamente, o enredo dos personagens e suas expressões sentimentais. O trabalho de Mária com técnicas de envelhecimento dos tecidos, repetição de rasgos, sujeira, sangue, é bastante impressionante, aliás. Os tecidos são tão bem escolhidos que quase podemos sentir seu toque pela tela.


Em Infinity Pool os destaques vão, obviamente, para as peças de James (Alexander Skarsgård) e Gabi (Mia Goth). Os protagonistas usam no início do filme roupas que pessoas muito ricas usariam em um resort: chapéus de verão, tecidos fluídos e com tons alaranjados, brancos, nude, areia e ocre. Essas cores vão estar presentes até nas cenas mais pesadas, sempre ressaltando que a leveza de algumas pessoas permanece como se não houvesse culpa alguma. Inclusive, as máscaras que os ricos usam em algumas cenas, consideradas típicas daquele país fictício, contém essas cores e nos leva a uma conexão: seja num resort ou numa orgia, essas pessoas se apoderam e apropriam do espaço, das tradições, da vida dos outros. É um grupo viciado em controle e poder.

Quando James é preso, a camisa de linho listrada representa sua dualidade aflorando: ele é mesmo tão bom? Ele sabe o que realmente sente? Ele é um monstro? Na delegacia substituem a camisa por uma camisola de hospital genérica: já não há mais o antigo James. Ele agora é algo à mercê de quem o controla: seja a polícia, seja o casal de novos amigos. Na execução, seu clone também usa branco.


Depois de muito filme rolar, temos aquela cena em que o grupo de ricos se apresenta ao James. São pessoas vestindo roupas sociais, ternos sutilmente listrados, tecidos leves de seda, cores neutras (a repetição de areia, ocre, lembram?). Gabi usa um vestido preto com botões dourados e pérolas penduradas nas costas: lembrando muito o clássico look de Bonequinha de Luxo. A orgia traz todos nus e com as máscaras em algum momento. A pele é o próprio figurino e é filmada de uma forma muito elegante. Mais adiante, na praia com a chuva torrencial se aproximando, Gabi usa brincos enormes representando sua autoridade e influência sobre James: ocupam um grande espaço na visão de quem olha. Ela escolher o que você vai ver.

No café da manhã com o grupo, James usa uma gravata preta, sem camisa ou camiseta. Apenas a gravata preta tentando conectá-lo àquele mundo de engravatados e ostentação de poder, ao mesmo tempo que não consegue se encaixar totalmente, está vulnerável e com o peito aberto. Ele provoca um hóspede, que usa camisa florida típica de turistas em destinos tropicais, jogando comida em outra mesa. Esse contraste representa o quanto aquelas pessoas se veem de um modo superior até a outras que estão no mesmo espaço. Não é somente a dominação financeira, mas também a superioridade moral.


Na cena mais querida pelas redes sociais, Gabi percorre James deitada no capô do carro, novamente vestindo preto, que apesar do tecido fluído e de toque suave (algo recorrente no figurino da personagem), tem a cor que imprime autoridade. Assim como depois seu clone usa uma coleira preta enquanto age como um cão raivoso. A autoridade não está ligada ao clone e sim a quem o controla. Ali, James entendeu seus lados mais profanos.

Por fim, ele guarda as cinzas de seus clones na mala. O jeito como tenta escondê-los com a roupa nos remete a um cuidado de ocultar seus pesadelos, seus traumas, vesti-los com as roupas da hipocrisia novamente. Aqui o figurino nos serve enredo mesmo que por segundos de roupas emboladas numa mala aberta. Seus clones foram mortos, mas não sumiram da sua bagagem emocional. James usou a roupa para transmitir sentimentos. No figurino da nossa vida, é o que todos fazemos.

 
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