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  • Foto do escritorMallu Correa

Beau tem medo e eu também

Texto sem spoilers!

O novo longa de Ari Aster é tudo que você precisa, mas definitivamente nada do que você espera. E acredito que, vindo do diretor de Hereditário e Midsommar, isso é exatamente o que poderíamos prever. Aster é, aqui, como sempre foi, surpreendente, ainda que conserve uma forma previsível de ser.


Sem sombra de dúvidas, “Beau tem medo” é o filme que mais vai dividir opiniões do diretor. Se Midsommar que é um filme de horror completamente consistente, que se atém a sua proposta, que inova e diverte, conseguiu ter uma penca de haters pelo mundo. Beau, obviamente, vai ter muito mais.


Isso, de maneira alguma, significa que o filme é ruim, muito pelo contrário. Acredito que seja fácil demais apostar em uma fórmula completamente batida, com uma mensagem moral socialmente aceitável, com alguns elementos diferentes, que já foi provado por a+b que funciona pra bilheteria e pra crítica (desculpa, evil dead rise, mas esse eu deixo por sua conta), do que apostar como Aster numa história nova, dentro de uma narrativa diferenciada e em uma realidade mais dura, que não há certeza de agradar.


Beau tira a gente de uma zona de conforto, essa é a verdade. E como toda vez que somos tirados dela, a gente estranha, mas nem por isso é uma experiência desagradável. É uma experiência que, provavelmente, jamais vai ser esquecida, seja para o bem ou para o mal.

A história de “Beau tem medo” gira em torno desse protagonista que sofre de uma ansiedade generalizada, mora em um bairro um tanto quanto perigoso e tem sérios problemas na relação com sua mãe. Em um dia que precisa pegar o avião para visitar a mãe, as coisas acabam se complicando e a viagem se torna um tanto quanto mais longa –e incrivelmente perturbada- do que ele imaginava.

Para além de toda a aflição que se pode visualizar dentro das relações, o filme também acaba se tornando uma verdadeira Lei de Murphy adaptada para o audiovisual, aonde todas as possibilidades mais absurdas que poderiam dar errado vindo das menores situações, acabam acontecendo. Talvez não tenha sido o melhor momento de lançamento quando o diagnóstico de pessoas ansiosas, segundo a OMS, aumentou mais de 25%. Mas vale a aposta em um filme que mistura vários gêneros e, ainda que não vá te deixar com medo de um fantasma debaixo da cama, vai, minimamente, te deixar aterrorizado. O horror de Aster, afinal, nunca esteve nos lugares mais esperados e nos jumpscares mais batidos. Nesse aqui, por exemplo, eu definitivamente fiquei com medo de uma terapia.


O filme tem três tempos bem definidos: Beau em sua casa e todo o caos que gira em torno dela, a viagem até a casa da mãe e o desenrolar da história quando ele chega ao destino. Apesar de parecer simples, nós estamos falando do diretor que acha ótimo a cabeça de uma criança arrancada por um poste e um homem sendo queimado vivo dentro de uma carcaça de urso. Tudo pode acontecer a partir de uma premissa simples. E é aqui que Aster NUNCA erra. Ele não tem dificuldade alguma em transformar algo corriqueiro como ir comprar uma garrafinha de água no começo de um verdadeiro pesadelo. Ele não sofre nenhum pouco em desenvolver relações familiares aparentemente normais em cenários perturbadores. E ele não se importa, graças a Deus, em ir até o fundo de seu subconsciente um tanto quanto doentio para não colocar uma história rasa no mundo.


Você pode reclamar das três horas de duração do filme, o que, sendo sincera, acho até justo. Você pode reclamar de não entender o filme, o que, aliás, talvez seja mais uma falta sua do que do diretor. Você pode até reclamar que seja simplesmente chato, porque convenhamos não é algo que agrade a todos. Mas você não pode dizer que Aster entrega um filme raso.


Que seus filmes tem um grande foco nas relações familiares e os possíveis desdobramentos perturbadores que se pode retirar delas, a gente já sabe. Mas Beau vai a fundo nisso. É difícil não se identificar com Beau e com sua relação com a mãe. O personagem, interpretado lindamente por Joaquin Phoenix, passa toda aquela sensação de desespero frente a uma desaprovação de sua família e uma constante busca por validação vinda da própria, ainda que isso destrua tudo ao redor. O diretor se propõe a colocar nas telas uma adaptação literal de todos os escritos de Freud, por mais polêmicos que eles sejam.


O complexo de Édipo, por exemplo, nada mais é do que a situação na qual uma criança acaba desenvolvendo um sentimento amoroso para com o progenitor do sexo oposto, enquanto que, por outro lado, cresce um certo ódio pelo do mesmo sexo. A interpretação do complexo de Édipo acaba se desenrolando a partir do comportamento que o indivíduo pode vir a ter no futuro, em sua fase adulta, em relação aos pais.

Quando Freud diz que “cada pessoa da plateia foi, um dia, em germe ou na fantasia, exatamente um Édipo como esse, e cada qual recua, horrorizada, diante da realização de sonho aqui transposta para a realidade, com toda a carga de recalcamento que separa seu estado infantil do seu estado atual” (1897), Aster se movimenta criando um personagem que passa a vida inteira horrorizado, mas buscando incessantemente esse amor maternal e definhando psicologicamente e socialmente em cada falha sobre ele.


O diretor toma o cuidado de apresentar ao público a relação de Beau com a mãe na infância, para que nós possamos compreender muitas das atitudes do mesmo na fase adulta, principalmente a um medo irracional que se apropria dele e, é claro, uma afeição também incompreendida até mesmo pelo próprio personagem. O filme não só se prontifica a abordar essa relação complexa, como também tira dela todo e qualquer pensamento intrusivo e doente que se possa imaginar.


Beau tem medo é uma viagem, não só literalmente de uma cidade a outra, mas também por toda a personalidade do personagem. Somos apresentados aos seus medos, sua rotina, suas paixões, seus sonhos, seus anseios, seus traumas. Somos colocados por três horas em um túnel que nos prende, nos causa ansiedade, nos choca e nos sensibiliza. Beau te mastiga e não te conforta. Mas faz repensar e talvez até mudar. E tá tudo bem, se Beau não te conquistar tanto assim, é normal, nem todo mundo tá preparado para aguentar as várias horas de uma viagem em que o que temos é uma paisagem bonita e nosso próprio reflexo, mas só quem passa por isso consegue conhecer um novo e extraordinário destino.

 

BEAU IS AFRAID (2023)

Beau Tem Medo


Direção Ari Aster

Duração 179 min

Gênero(s) Terror, Drama, Comédia

Elenco Joaquin Phoenix, Patti LuPone, Amy Ryan, Parker Posey Nathan Lane, Armen Nahapetian +

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1 comentário


liara.bna13
25 de abr. de 2023

muito satisfatório ler uma crítica bem elaboradinha desse filme que é tão maluco e complexo!

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