• Tati Regis

Scare Us: uma antologia, um serial killer e muitas decepções

As antologias de terror há muito nos divertem ou nos assustam, seja no cinema, na TV ou na literatura. No cinema, seu grande ápice foi nas décadas de 60 e 70, embora tenhamos ainda na década de 40 o memorável Na Solidão da Noite (1945). A verdade é que a tradição oral de contar histórias encontrou no terror um lugar, digamos, confortável para se habitar. É claro que em todo conjunto de histórias, dificilmente todas agradará ao público, ainda assim tem aquelas que se tornaram inesquecíveis e obrigatórias como Black Sabbath (Mario Bava, 1963), Kwaidan (Masaki Kobayashi, 1965), Tales from the Crypt (Freddie Francis, 1972), Trilogia do Terror (Dan Curtis, 1975), Creepshow (George Romero, 1982), Tales From The Hood (Rusty Cundieff, 1995), Trick 'r Treat (Michael Dougherty, 2007), XX (Roxanne Benjamin, Annie Clark, Karyn Kusama, Jovanka Vuckovic, Sofia Carrillo, 2017) e mais tantas outras.


Scare Us, um coletivo de terror de 2021, é composto de 4 segmentos contados por escritores aspirantes que se encontram numa livraria na cidade de Sugarton. Atormentados pela possível volta de um assassino apelidado de "Cutthroat", o grupo compartilha com Peter (Tom Sandoval), dono da livraria local, suas histórias assustadoras e não demora muito para descobrirem que eles mesmos viram os protagonistas das próprias tramas. Fantasmas, monstros, ocultismo, comportamentos duvidosos e objetos amaldiçoados são alguns dos motes que aparecem em cada conto e acabam por ter relação direta com cada escritor, seus traumas e personalidades, ou seja, aquilo que realmente os assusta. Um bom recurso para desenvolvimento de personagens e para nos colocar na trama com o nível de medo e suspense que uma boa histórias de terror pede. Mas será o caso de Scare Us?



O primeiro segmento é geralmente aquele que dá o tom ao restante do filme. Intitulado Night Haul, é contado pela personagem Naomi (Michelle Palermo) e mostra de início uma conversa conturbada de uma relação possivelmente acabada. Aborda temas como o medo do desconhecido e possessões. Consegue criar uma atmosfera satisfatória, mas derrapa na execução e conclusão. É bom pois já baixa a expectativa para o próximo, fazendo inclusive ser o segmento que mais me deixou satisfeita e querendo mais. Untethered, contado pelo mais jovem do grupo, o adolescente Mikey (Ethan Drew) realmente me deixou assustada pois brinca mais com o psicológico do que de fato com o medo e ameaças reais. Ele vê seu pai, um policial, chegar em casa meio estranho e alheio à realidade após investigação envolvendo assassinato e suicídio de uma família. Essa mudança de comportamento ganha proporções te fazendo questionar diversas vezes o que é sonho e o que é realidade. É de fato uma história que merecia um longa.


O terceiro segmento é Dead Ringer, contado por Diego (Michael C. Alvarez) um homem que parece gostar do controle e teme as adversidades por não conseguir enfrentá-las. Sua história é assustadora e assim como a segunda, salvam praticamente o filme. Aqui, a impotência diante do desconhecido é o mote. Uma criatura que não sabemos como é, de onde veio e nem pra onde vai é assustadora e deixa para nossa imaginação trabalhar as conclusões. O erro desse conto é a duração, pois poderia ter explorado muito mais a tensão que vinha sendo bem desenvolvida. The Resting é o quarto segmento, contado por Claire (Charlotte Lilt), nos trazendo uma história que parece com várias outras já contadas: segredos de família envolvendo ocultismo e maldições. Tentam um plot twist no meio, mas é tão clichê que chega a ser irritante. Claire é a protagonista do filme junto com Peter, o dono da livraria, que finalmente conta sua história costurando de vez a trama. After Hours tenta trazer de volta uma aura de medo que ronda a cidade por conta de um serial killer chamado "Cutthroat". É Peter que fecha a noite de histórias assombrosas dos escritores com um clímax broxante e preguiçoso.


Eu sou daquelas que quando se depara com uma antologia já cai pra dentro mesmo desconfiando que a decepção virá. Acho um bom passatempo. Foi o caso de Scare Us? Não totalmente. Ele é o velho caso do poderia ter sido, mas não foi. Tem dois curtas que considero bons, um mais ou menos, um péssimo e uma história de contorno horrorosa. Indico? Vá por sua conta e risco.


Scare Us (2021)


IMDb | Letterboxd | Filmow

Direção Tom J. McCoy, Carl Jensen IV, Jordan Pillar, Ryan Henry Johnston, Ryan Kjolberg, Charlotte Lilt

Duração 1h37min

Gênero(s) Terror

Elenco Tom Sandoval, Charlotte Lilt, Michelle Palermo +


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