• Allan Azevedo

Rabid

Apesar de David Cronenberg ter deixado o horror para trás há muito tempo, ele estará para sempre ligado ao gênero que ajudou a estabelecer, com obras extremamente relevantes e chocantes.


Cronenberg é, mais precisamente, o pai do body horror, vertente do gênero que discorre de maneira orgânica e explícita sobre as transmutações do corpo humano, sejam elas reais ou metafóricas.


Confira também nosso episódio sobre 24 Body Horror | Henry Barros (Claquete de Papel)


Antes de se firmar como um dos diretores mais influentes do cinema de terror com filmes como Scanners, Videodrome e A Mosca, o canadense David Cronenberg deu seus primeiros passos no terreno do body horror com Rabid, sobre uma mulher que sofre com os horrendos efeitos colaterais de uma cirurgia experimental.


O filme, de 1977, foi estrelado pela falecida Marilyn Chambers, que na época era muito conhecida por seu trabalho em filmes adultos. Isso, provavelmente, influenciou bastante na escolha do título sensacionalista que o filme ganhou no Brasil: Enraivecida na Fúria do Sexo.



Agora, quatro décadas depois, as diretoras (gêmeas) canadenses Jen e Sylvia Soska (do terror cult American Mary), fazem um tributo a Cronenberg com esta refilmagem homônima ao título original, Rabid (CAN - 2019), ao mesmo tempo em que tentam dar à história original uma roupagem moderna.


A maior atualização que as irmãs Soska fazem na história criada por Cronenberg é dar a Rose a autonomia que ela nunca teve anteriormente. No filme original, Rose era uma figura trágica que nunca teve nada na vida. Nem mesmo uma opinião.


As Soskas dão a Rose ambição, uma voz firme, e uma forte bússola moral. É ela quem provocou seu acidente. É ela quem consente com o procedimento, e é ela quem move a história adiante. Rose é o epicentro do horror e o público assiste a tudo através de seus olhos. Enquanto o original capturava a tragédia, as irmãs Soska miram na fúria.


O lado ruim, entretanto, é que tal mudança afeta os relacionamentos de Rose com os personagens ao seu redor, o que os torna extremamente subdesenvolvidos.



Seja através de evidentes homenagens visuais ou sutis referências em alguns diálogos, as irmãs Soska prestam tributo ao trabalho de Cronenberg ao longo de todo o filme.


De uma pequena menção ao filme Calafrios (Shivers - 1975), primeiro longa do diretor, até uma das cenas principais envolvendo uma cirurgia que parece tirada de Gêmeos: Mórbida Semelhança (Dead Ringers - 1988), as gêmeas querem se certificar de que deixam bem claro o quanto ambas respeitam e amam o mestre do horror canadense.


Os efeitos de maquiagem se desenvolveram demais ao longo dos quarenta e dois anos que separam o filme original de seu remake. Ou seja, neste aspecto, há uma melhora significativa.



Os efeitos prostéticos e de criaturas mostram a raivosa epidemia de maneira bem mais sangrenta e cruel. Rabid apresenta algumas reviravoltas e expande sua mitologia de formas bem interessantes, ainda que nunca desenvolva tais formas como deveria.


Rabid é o filme mais bem executado da carreira das irmãs Soska até agora. Jen e Sylvia Soska arregaçaram as mangas e colocaram seus corações no projeto, que serve como uma verdadeira carta de amor à Cronenberg e ao Canadá.


Só o gore e os efeitos de maquiagem já valem assistir ao filme, assim como a nova Rose, com sua imprevisibilidade, sua transformação e suas falhas. O horror do filme pode ser metafórico, mas sua protagonista não.


Rabid (2019)


IMDb | Rotten Tomatoes | Letterboxd | Filmow

Direção Jen Soska, Sylvia Soska

Duração 1h47min

Gênero(s) Terror, Ficção Científica

Elenco Laura Vandervoort, Ted Atherton, Benjamin Hollingsworth +


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